Case· Indústria metalmecânica

Auditor fiscal automatizado: como conferimos mais de 2 mil XML de NF-e de entrada numa indústria

Lucas Assumpção
Por · 9 min de leitura

Resposta direta: um auditor fiscal automatizado lê o XML de cada NF-e de entrada, consulta a situação da nota na SEFAZ, confere CFOP, crédito de IPI, DIFAL e prazos contra as regras da empresa, cruza com o livro de entradas e aponta só o que está divergente. Construímos um para uma indústria metalmecânica: mais de 2 mil notas analisadas, e a equipe fiscal passou a revisar só o que foi sinalizado.

fluxo · auditor fiscal de nf-e de entrada
01XML chegaA nota cai na pasta da empresa, como já acontecia
→
02ColetaA cada 6 horas, sem duplicar nota
→
03VerificaçõesSEFAZ, CFOP, IPI, DIFAL, prazos e livro de entradas
→
04Equipe fiscalRevisa só o que veio sinalizado
O sistema só lê as pastas de notas. Nada é apagado, movido ou alterado lá.

A dor: conferir nota por nota não acompanha o volume

Em indústria com muitas notas de entrada, a conferência fiscal é feita uma a uma. O analista abre o XML, confere o fornecedor, o CFOP, a base de cálculo, o IPI, compara com o que foi lançado e repete isso dezenas de vezes por dia. O volume cresce mais rápido que a equipe, e o que não dá tempo de conferir passa sem revisão.

O custo aparece depois, e sempre maior:

  • Crédito tributário perdido. IPI que poderia ser creditado e não foi, porque ninguém olhou o item com calma.
  • Divergência no fechamento. Uma alíquota lançada com uma casa decimal a menos vira diferença que só aparece no fim do mês.
  • Nota cancelada escriturada. A nota é baixada da SEFAZ assim que é emitida, mas a mercadoria e a escrituração chegam dias depois. Essa janela costuma ser de 5 a 7 dias. Se o fornecedor cancela nesse meio tempo, a nota cancelada pode entrar no livro.
  • Remessa sem retorno. Material enviado para industrialização tem prazo de retorno de 180 dias. Sem controle, o prazo vence e vira problema fiscal.
  • Regra na cabeça de uma pessoa. Quem sabe qual CFOP usar para cada aplicação é o analista mais experiente. Quando ele sai de férias, a conferência anda mais devagar ou para.

O que construímos

Um auditor fiscal que roda todos os dias, numa máquina da própria empresa, e faz a conferência repetitiva antes de a nota chegar ao analista. Ele não substitui a equipe fiscal: tira dela o trabalho de conferir tudo e entrega uma lista do que precisa de atenção, com o motivo escrito.

Três entregas formam o sistema:

  1. Triagem diária por e-mail. Todo dia sai um resumo das notas do dia anterior, em semáforo, para o fiscal, a contabilidade e o administrativo.
  2. Painel da nota. Uma ficha por nota, com as divergências no topo, os dados prontos para o lançamento e as pendências organizadas por idade.
  3. Conferência do livro de entradas. O auditor casa cada lançamento do Registro de Entradas com o XML correspondente e confere os dois lados.

Como funciona, passo a passo

  1. Coleta os XMLs. A cada 6 horas, e sempre que a máquina liga, o sistema lê as notas novas da pasta, descarta duplicadas pela chave de acesso e separa entrada de saída pelo CNPJ da empresa.
  2. Consulta a SEFAZ. As notas que aguardam escrituração são reconsultadas no Portal da NF-e com o certificado digital da empresa. Cada consulta fica guardada num histórico que nunca é sobrescrito, então dá para ver quando a situação de uma nota mudou.
  3. Roda oito verificações por nota. Situação na SEFAZ, escrituração, fornecedor do Simples Nacional, operação interestadual, CFOP sugerido, crédito de IPI pela TIPI, DIFAL e prazo de retorno de remessa para industrialização.
  4. Confere o livro de entradas. Mais oito conferências: se as linhas fecham com o valor da nota, se o ICMS e a base batem, se o CFOP lançado é coerente, se o NCM estava vigente na data de emissão, o histórico do fornecedor e o arredondamento de alíquota.
  5. Entrega e espera a decisão. O resultado vai para o e-mail e para o painel. O sistema sugere e sinaliza. Quem lança é o analista.
verificações do auditor · 8 por nota + 8 no livro de entradas

Situação da nota

  • Situação na SEFAZ
  • Já escriturada
  • Fornecedor do Simples

Prazos

  • Remessa com retorno em 180 dias

Tributos

  • Operação interestadual
  • CFOP sugerido
  • Crédito de IPI pela TIPI
  • DIFAL

Livro de entradas

  • Nota casada com o lançamento
  • Fechamento com o valor da nota
  • ICMS do XML × livro
  • Base de cálculo
  • CFOP lado a lado
  • NCM vigente na data
  • Histórico do fornecedor
  • Arredondamento de alíquota
Cada verificação devolve verificado, não verificado ou não se aplica, com o motivo escrito.

Um exemplo do que a conferência de arredondamento pega: uma alíquota de 57,1689% lançada como 57,17%. A diferença é pequena por item e vira divergência no fechamento, justamente o tipo de detalhe que o olho humano não pega no décimo lançamento do dia.

O auditor trata o lançamento como mais uma fonte a conferir, não como verdade. Ele recalcula pela nota e mostra a divergência dos dois lados, porque a diferença pode estar no lançamento ou no parâmetro usado para lançar.

painel · ficha da nota

NF 004812 · fornecedor de aço · 3 itens · entrada

● SEFAZ: autorizada, consultada há 2 horas

● CFOP sugerido para o item 1: 1.101 · selo "confirmar"

● NCM 7228.40.00: vigente na data da nota

● Crédito de IPI provável: 5,00% sobre o item 1

● Livro de entradas: ICMS do item 2 diverge do XML na segunda casa decimal

● 1 divergência · 1 item para confirmar · aguardando o analista
Exemplo ilustrativo de uma ficha do painel. Números fictícios.

Por que regra, e não modelo de IA, na conta do imposto

Em dado fiscal, a resposta precisa ser exata e auditável. Por isso cada verificação é uma regra escrita e coberta por teste automatizado, que dá sempre a mesma resposta para a mesma nota. São 707 testes passando hoje. O princípio do projeto ficou registrado assim: determinismo primeiro, IA onde agrega.

A IA está no centro de como o sistema foi feito. Ele foi escrito com o Claude Code, o agente de programação da Anthropic, com cada regra nova nascendo de um teste escrito antes do código e conferida com notas reais de amostra. O painel roda em FastAPI, com banco local em SQLite, e o cadastro de fornecedor (por exemplo, se ele é atacadista para a regra de crédito de IPI) é consultado em bases públicas de CNPJ como a BrasilAPI.

O resultado

  • Mais de 2 mil notas fiscais analisadas.
  • Triagem diária com e-mail automático em produção desde julho.
  • Janela da nota cancelada fechada: notas não escrituradas são reconsultadas na SEFAZ até o lançamento.
  • Livro de entradas conferido com 8 verificações, e remessas para industrialização acompanhadas até o retorno.
  • Equipe fiscal no que importa: deixa de conferir tudo e revisa o que foi sinalizado, com o histórico de cada nota registrado.
  • Regra fiscal registrada na empresa: o que estava na cabeça de uma pessoa virou verificação escrita e testada.

Boas práticas que aplicamos no auditor fiscal

1. CFOP sugerido com grau de certeza. O CFOP depende da aplicação de cada item (insumo, uso e consumo, ativo), não só do fornecedor. Por isso o sistema mostra o histórico do fornecedor como dica e marca cada CFOP sugerido como "firme" ou "confirmar". A controladoria vê de cara onde precisa olhar e decide.

2. Redução de base lida no próprio XML. O auditor confere a redução de base de cálculo pelo campo declarado na nota, e não por dedução a partir de "base menor que o valor". Assim o alerta aparece só quando existe divergência de verdade, e a equipe fiscal confia no que recebe.

3. NCM conferido na data da nota. O NCM de cada item é checado contra a tabela oficial vigente na data de emissão. O selo do painel diz "vigente" ou "vencido", com a regra por trás de cada um.

4. A pasta de notas é tratada como produção. O sistema só lê as pastas, e isso é uma trava no código: se alguém configurar o banco ou o backup apontando para a rede, o sistema recusa. Antes da instalação, rodamos tudo sobre uma cópia protegida dos 184 arquivos reais de notas: 184 antes, 184 depois, nenhum modificado.

5. A regra é da controladoria, não do programador. Cada regra nasce de conversa com a equipe fiscal e vira teste automatizado. O crédito de IPI de fornecedor atacadista, por exemplo, considera o CNAE principal e o secundário, do jeito que a equipe fiscal definiu.

A decisão de construir regras próprias, em vez de contratar uma ferramenta genérica, é discutida no artigo sobre comprar ou construir software com IA. Para comparar com outra rotina de conferência documental, veja a leitura de atestados médicos com IA no RH: o documento muda, mas a revisão dos alertas continua com a equipe.

Como a Nexus usa IA na área fiscal

Na área fiscal, usamos IA para chegar mais rápido a um sistema confiável, não para terceirizar a decisão. O caminho é sempre o mesmo: mapear a rotina real de conferência com quem faz, transformar cada regra em verificação testada com nota real, construir o sistema com IA ao lado e manter a equipe fiscal validando o que importa.

É o mesmo princípio da nossa solução de auditor fiscal com IA e do agente de IA no ERP Sankhya com o Claude: o dado fica dentro da empresa, a regra é de quem responde por ela e a automação tira a conferência repetitiva da frente da equipe.

Perguntas frequentes

O que faz um auditor fiscal automatizado? Ele lê o XML de cada NF-e de entrada, consulta a situação da nota na SEFAZ, confere CFOP, crédito de IPI, DIFAL e prazos contra as regras fiscais da empresa e aponta só o que está divergente. A equipe fiscal deixa de conferir nota por nota e passa a revisar o que foi sinalizado.

O sistema decide o imposto ou o CFOP sozinho? Não. O cálculo e a comparação seguem regras escritas e testadas, que dão sempre a mesma resposta. O sistema sugere e sinaliza; quem decide o lançamento é a equipe fiscal.

Quais verificações o auditor faz em cada nota? Neste projeto, oito verificações por nota (situação na SEFAZ, escrituração, fornecedor do Simples, operação interestadual, CFOP, crédito de IPI, DIFAL e prazo de retorno de remessa) e oito conferências contra o livro de entradas, de valor e ICMS a NCM vigente e arredondamento de alíquota.

Os dados fiscais saem da empresa? Neste projeto, não. O sistema roda numa máquina da própria empresa, com banco local, e só acessa a internet para consultar a SEFAZ e cadastros públicos de CNPJ.

Quanto tempo leva para colocar um auditor fiscal no ar? Depende do volume de notas e das regras da empresa. Neste caso, a triagem diária com e-mail entrou em produção primeiro e o painel completo veio depois, em fases, calibrado com a equipe fiscal.

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